sexta-feira, 20 de junho de 2008

A nova Berlim por Hellmuth Karasek

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Berlim, a nova Berlim, a Berlim da Alemanha unificada, que desde 1990 é novamente a capital de um Estado, não deixa transparecer quase nada daqueles 28 anos de separação, o corte histórico mais profundo na vida comunicativa dessa metrópole de 4,5 milhões de habitantes. O ”Muro”, um conceito único, desapareceu totalmente, deixando apenas alguns vestígios em museus. Seus pedaços de concreto foram parar atrás das vitrinas de devotos colecionadores de relíquias. O que também desapareceu foi a sensação de cidade dividida, pois em Berlin-Mitte, o Leste e o Oeste realmente se fundiram, dando origem a algo novo, o que ainda não se pode dizer de outros bairros desta cidade. A nova sociedade de Berlim, composta de políticos do governo, de lobiístas, de círculos de cultura e entretenimento, reunidos ao redor da Porta de Brandemburgo, também vem se estendendo em direção a Berlin-Mitte. Neste bairro, em torno de uma das mais lindas praças da Alemanha, a Gendarmenmarkt, há uma grande quantidade de espetaculares hotéis, restaurantes, lanchonetes, bares e centros culturais que nos dão, com razão, a esperança de que Berlim possa novamente se tornar o coração pulsante de uma Alemanha reunificada. Apesar de todos os reveses, principalmente econômicos, Berlim continua trilhando este caminho.

Quem, passeando pela praça Potsdamer Platz, vagueia pela elegante parte italiana, de cor de terracota, ou se senta sob as árvores, no verão, em uma anonimidade urbana aparentemente sociável, mas que paradoxamente não se deixa importunar pelos ônibus de turismo, e quem aqui, no inverno, admira o desfile dos astros e estrelas na Berlinale, na praça Marlene-DietrichPlatz, não tem dúvida quanto ao futuro desta cidade, o futuro de uma cidade que, iluminada à noite pela nova cúpula do Parlamento,o Reichstag, faz lembrar o Reichstag, aquilo que mais liga o destino de Berlim e de toda a Alemanha: penso no incêndio do Reichstag, de 1933, na tomada sangrenta e terrível que transformou Berlim em um monte de ruínas, terminando com a conquista do Reichstag pelo Exército Vermelho. Penso na grande festa da reunificação, onde uma multidão de pessoas uniu o Reichstag à Porta de Brandemburgo.

A jovem Berlim

Berlim ainda é uma jovem capital e novamente uma capital. Isto porque até 1945, quando esta cidade foi destroçada juntamente com o barbarismo de Hitler, ela tinha sido a jovem capital do Reich alemão, a partir de 1871, crescendo explosivamente nos anos ”Gründerjahre”, tendo sido sempre marcada e determinada por ocorrências históricas. Quem quiser se transportar para o apogeu cultural dos anos ”Gründerjahre”, a época de Theodor Fontane, só precisa passear ao longo da rua Potsdamer Strasse, ou contemplar o teatro na Gendarmenmarkt. Já faz tempo que não é encenada aqui nenhuma peça teatral. Mas quando se faz a outorga da Câmara Dourada, este prédio irradia um brilho que, nos tempos de Fontane, com a modéstia prussiana da época, era o apogeu da cultura teatral alemã.
No Schiffbauerdamm, no meio de Berlim, cidade dividida, ficava o Berliner Ensemble de Bertolt Brecht, um dos mais famosos teatros desta cidade e, ainda hoje, um teatro vivo, sempre disposto a provocar. Foi neste prédio que estreou em 1929 a ”Ópera dos Três Vinténs”. Não muito longe dele, encontra-se o ”Palácio das Lágrimas”, o corredor de entrada e saída entre o Oeste e o Leste, na estação Bahnhof Friedrichstrasse, com seus rígidos controles de fronteira. Perto daqui fica o palácio Admiralspalast, no qual o parlamento se reuniu, após o incêndio do prédio do Reichstag, e no qual Hitler declarou a II Guerra Mundial.

OS TEATROS E MUSEUS DE BERLIM são um capítulo de luxo e riqueza histórica, seja o enorme complexo da Ilha de Museus, onde até há pouco ainda havia as marcas de tiros das lutas travadas por Berlim em 1945, seja o teatro no prédio Mendelsohn-Bau, esplendidamente restaurado, na praça Lehniner Platz, que nos anos setenta e oitenta era um dos melhores palcos da Alemanha. Há também o Deutsches Theater, antigamente o teatro de Max Reinhardt. Há o Volksbühne, que após a era da RDA cultivou uma cultura pós-RDA. Existem, como testemunhos da antiga divisão, duas óperas com tradições nova e antiga. E há a leve construção da Filarmônica, dando um pouco a impressão de contos de fada, lar de uma das melhores orquestras do mundo, a Filarmônica de Berlim, que, aprimorada por Herbert von Karajan na época da Guerra Fria, tornou-se famosa no mundo todo.

A Berlim poliglota


Berlim era e continua sendo uma cidade poliglota, uma cidade internacional. E isto já desde os reis prussianos que, com o seu Edito de Tolerância, trouxeram para esta cidade os hugenotes, os quais deram à cidade prussiana um polimento francês. E quem quiser poderá senti-lo ainda hoje. Na rua Jägerstrasse, onde se encontra hoje, em um prédio de tijolos vermelhos, um dos templos gastronômicos mais badalados, uma placa lembra que a intelectual judia Rahel Varnhagen reunia aqui, no seu famoso salão, os intelectuais da época. Berlim foi uma cidade de cultura alemão-judaica, uma cidade do pré-feminismo, o que também foi fruto da tolerância prussiana.
E Berlim ainda conservou essa tolerância, apesar da sua proverbial grosseria – ou talvez por causa dela? Berlim fica perto do Leste. A fronteira com a Polônia não é longe. Em janeiro ou fevereiro podem-se sentir os ventos continentais geladíssimos que vêm das longíquas regiões da Rússia. Esse clima poderia animar a cidade a construir uma ponte entre o Leste e o Oeste: uma perspectiva muito mais promissora, se a ampliação da União Européia para o Leste se estabelecer como realidade social. Berlim está no meio do caminho, mas ainda muito longe da meta.


Hellmuth Karasek

editor do jornal Tagesspiegel, de Berlim


Schönes Wocheende!!!

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